Parece haver uma regra tácita aqui no Recife de que um shopping, para ser construído, precisa imprensar uma favela – ou uma comunidade menos favorecida, vamos dizer assim.
Os principais shoppings da cidade, como o Recife e Tacaruna, são arrodeados por casebres e barracos. Na foto abaixo, por exemplo, está uma das laterais do Shopping Recife. A mureta que separa a sarjeta (na verdade, um grande esgoto a céu aberto) é separada do asfalto por uma mureta. Uma pessoa muito otimista poderia dizer: “Mas isso é para proteger os pedestres”. Certo, proteger os pedestres com um minimuro na altura na canela? Na verdade, isso só serve pra esconder o esgoto de quem passa de carro.
Não consegui fazer foto do Shopping Tacaruna, mas vou descrever: há uma comunidade pobre do lado do shopping. Por isso, foi erguido um muro. Obviamente eles podem fazer isso, é o terreno do shopping. Mas quem passa não tem dúvidas de que o muro, alegremente pintado de verde e com personagens fofos e simpáticos, tem como principal objetivo esconder os casebres.
Um novo shopping, que será o maior do Nordeste, está sendo construído pelo poderoso grupo JCPM – ex-Bom preço e dono do sistema Jornal de Commercio, entre outros. Além de ser praticamente na beira do rio (ninguém toca nesse assunto), será vizinho de palafitas (foto abaixo). Mas, aparentemente, essas casinhas darão lugar a moradias mais dignas – procurei matérias rapidamente sobre isso, mas não encontrei; ouvi um comentário no rádio). Uma nova prática, talvez.
Não investiguei qual a relação social dos shoppings com as comunidades. A econômica é visível: há um intenso comércio de produtos e serviços para funcionários dos shoppings e clientes menos abastados. Mas não estou aqui pesando benefícios ou possíveis prejuízos para as comunidades (onde as moradias também devem valer mais do que na periferia). Estou observando a relação física/geográfica dos grandes centros de compra com a grande massa pobre do Recife – onde os contrastes parecem ser maiores (coisa que já comentei aqui).
Longe de mim ter um acesso tucano-elitista e reclamar da “invasão pobre no meu shoppinzinho”. Nada relaciona os constantes arrastões em shoppings à proximidade com comunidades carentes. Até porque, se fosse assim, não haveria assaltos e homicídios onde não há pobreza. O que observo é que nem a proximidade com grandes centros de compras – e a visibilidade que isso dá – parece mudar a situação dessas pessoas. Mesmo com todos os supostos benefícios econômicos: isso é automático, cresce sozinho.
Ou seja, escondida ou escancarada, a miséria não nos toca, não nos move a mudar a situação. Seja em Natal ou em Recife.











